Mulheres Pioneiras na Musica Eletrônica

Atualizado: Jun 12

Texto por Equipe Techtrônica

O programa remonta a história da música eletrônica, ressaltando a importante participação das mulheres no desenvolvimento de técnicas e tecnologias que contribuíram para a evolução e consolidação deste gênero musical.

Da música concreta, passando pela arte da sonoplastia, a música eletrônica para teatro e tv, o programa faz um passeio pela história da música eletrônica desde os seus primórdios, antes mesmo de se tornar um ritmo dançante e popular.

Na imagem: Suzanne Ciani, diante de seu sintetizador Buchla.

Compositora, pianista, designer de som e executiva de sua própria empresa de sonoplastia, é responsável pela criação de sons icônicos e está em atuação até o momento presente.




Tecnologia aplicada à música

O programa remonta a história da música eletrônica, ressaltando a importante participação das mulheres no desenvolvimento de criações tecnológicas que influenciaram e transformaram a estética sonora ao longo do tempo. Refazendo os primeiros passos e, assim, passando pelas origens e apresentando referências históricas que marcaram a consolidação desse gênero musical, trazendo também uma tracklist que reconta toda essa história através da música. A música eletrônica, antes de se tornar um gênero musical dançante e popular, tinha um caráter muito mais experimental, relacionado à criação e desenvolvimento de novos instrumentos eletrônicos, que, inicialmente, estavam restritos ao meio acadêmico-científico.


Novas tecnologias à serviço da arte

Um dos primeiros instrumentos musicais marcantes para a história da música eletrônica foi o Theremin, desenvolvido inicialmente pelo físico russo León Teremim, a partir de estudos sobre campos eletromagnéticos e sensores de proximidade.


O fato de ser um equipamento sem cordas ou teclas, mas capaz de produzir notas musicais apenas com a proximidade das mãos, gerava bastante curiosidade, fazendo com que a invenção ganhasse popularidade nos anos 20.

Mas sua verdadeira aplicação enquanto instrumento musical só se deu nas mãos da violinista clássica Clara Rockmore, conhecida como a virtuose Lituânia de afinação perfeita. Ela atuou como solista na Filarmônica de Nova York, na Orquestra da Filadélfia e na Sinfônica de Toronto.


Clara Rockmore dominou rapidamente o Teremim enquanto instrumento e trabalhou diretamente ao lado do inventor nas melhorias e aperfeiçoamentos em relação à dinâmica, alcance e precisão das notas.

Surpreendendo o público em todo o mundo, Clara Rockmore foi uma pioneira ao unir sua sensibilidade musical a uma tecnologia inovadora, expandindo as fronteiras da música clássica ao inserir um instrumento eletrônico de timbre único em suas apresentações.


Clara Rockmore foi uma garota prodígio que ainda muito nova destacou-se no piano e no violino. Aos 4 anos, ela foi aceita para estudar violino no Conservatório Imperial de Sao Petersburgo, no qual se desenvolveu no instrumento, interrompida apenas pela fuga da família da revolução soviética.


Naquela época, a Lituânia estava sob o controle da Rússia, mas, depois de atribuladas tentativas, sua família conseguiu a viagem para os Estados Unidos, chegando lá em 1921.

Por causa de uma má nutrição que rendeu a Clara alguns problemas ósseos, Clara Rockmore precisou deixar o piano e o violino de lado, mas foi em busca de um novo instrumento através do qual ela pudesse expressar sua genialidade musical e veia artística: esse é justamente o seu encontro com o Teremin.


Teremin é um instrumento de radiofrequência, tocado através da posição das mãos de quem o toca. A distância entre as mãos e o aparelho interrompem ou alteram o campo magnético irradiado. Interessante, né?


Antes de Clara, o teremin só tinha sido usado para a produção de efeitos sonoros da indústria cinematográfica nos Estados Unidos.


Esse é um grande link com a música eletrônica. O desenvolvimento da música eletrônica está intimamente relacionado com a criação de estúdios de sonoplastia voltados para as produções de Rádio e TV. Neste sentido, o Workshop Radiofônico, da BBC de Londres, foi um dos maiores centros de inovação eletrônica do mundo, entre os anos 40 e 60, e sua co-fundadora foi Daphne Oram.

Daphne Oram foi uma mente brilhante no experimentalismo sonoro. Era pianista, compositora e trabalhou na BBC britânica como engenheira de som, sonoplasta, compondo obras de música eletrônica para TV, Teatro, Rádio e Televisão. Ela foi a primeira mulher a projetar um instrumento musical eletrônico.


Em 1957, Daphne Oram desenvolveu uma técnica de criação de som por desenho em filme magnético, ela criou o Oramics, uma máquina baseada no sistema chamado Graphical Sound. Esse sistema consiste na gravação de sons criados a partir de imagens desenhadas em tiras de filme, gravadas em fita magnética e reproduzidas em um sistema de som.


As criações de Daphne Oram, para rádio, filmes e programas de TV são peças musicais que integram a chamada Música Concreta, na história da música eletrônica.


Outra compositora incrível dessa época é Delia Derbyshire. Delia nasceu na Inglaterra, mas precisou se mudar com sua família de lá, logo após a “Blitz de Coventry”, que foi uma operação militar de bombardeamento aéreo na cidade de Conventry realizada durante a Segunda Guerra Mundial.



Vinda de uma família de pais trabalhadores, Delia foi aceita para estudar matemática em Oxford e em Cambridge, um fato que nos chama a atenção para a frequente recusa de Delia a ser limitada por padrões de sexo e gênero, já que nesse contexto apenas uma em cada dez estudantes era mulher. Mas após um ano de estudo, ela decidiu mudar o curso para a sua real paixão: a música, concluindo a universidade, em 1959, com graduação dupla em matemática e em música.


Foi então que Delia Derbyshire se candidatou a uma vaga na Decca Records, ouvindo como resposta que a gravadora “não empregava mulheres em seus estúdios de gravação”. Depois disso, ela trabalhou como professora de piano e de matemática. Somente em 1960, é que ela inicia no departamento radiofônico da BBC, um dos trabalhos mais importantes da sua trajetória.


Em 1964, Delia Derbyshire lança o álbum "The Dreams", que é considerado um clássico da música eletrônica nos seus primórdios. Durante toda a sua trajetória, Delia criou uma série de sons e arranjos, construindo o caminho para que mais mulheres trabalhassem com produção musical.


Várias pessoas diferentes ficam descrevendo sonhos, e a sonoridade ao fundo tenta dialogar com as sensações descritas./ Mas, na verdade, a obra mais conhecida de Delia é a música tema de Dr. Who, uma das séries mais antigas de ficção científica.


No final dos anos 1950, podemos citar a compositora e acordeonista Pauline Oliveros, amiga próxima do músico John Cage e que deu uma grande contribuição para a criação da “música eletrônica de arte”. Oliveros explorou fortemente técnicas de fita na música eletrônica, apresentando uma linguagem meditativa em suas composições.


Me

mbra fundadora do San Francisco Tape Music Center, além de ser uma figura central no desenvolvimento de técnicas que exploravam a música com profundidade existencial, Pauline Oliveros também levantou sua voz em relação à desigualdade de gênero, defendendo a participação de mulheres no campo das artes, música e tecnologia.


Pauline Oliveros desenvolveu uma noção de teoria musical que estava muito próxima da espiritualidade. A chamada “Deep Listening” tinha como fundamento a ideia de ouvir/escutar como ritual, cura e meditação.


Essa noção transcendental de música proposta por Oliveros deu origem a um Instituto e a um disco, que foi gravado em 1989 em uma cisterna abandonada a 4 metros de profundidade. Fiquem agora com “The Last Time”, uma composição dessa artista inspiradora.


Vocês ficam agora com mais uma composição de Pauline Oliveros. A música “A love song” é um ótimo exemplo de meditação musical e tem como destaque as vibrações do instrumento acordeon! Vamos ouvir?


Outra artista pioneira na música eletrônica foi a americana Maryanne Amacher.


Atuando como compositora e designer de som, o trabalho de Amacher com fenômenos psicoacústicos, nos quais os próprios ouvidos produzem som audível, antecipa importantes desenvolvimentos nas áreas de mídia e som. Ela compôs diversas obras baseadas em som e espaço, com a proposta de encontrar padrões de harmonia e de dimensão. Vamos ouvir agora duas composições ****, de Maryanne Amacher!


Voltando a falar das composições com fitas, assim como Pauline Oliveros, outra compositora que teve um interesse especial pelas técnicas de fita foi a francesa Eliane Radigue. A compositora expressou seu trabalho com som e audição usando feedback, laços de fita e, a partir dos anos 70, o sintetizador modular ARP 2500, que se tornou seu instrumento de assinatura.


Isso mesmo, Monique, Eliane Radigue construiu sua trajetória ao rejeitar sons tradicionais, sons já esperados de um instrumento eletrônico, compondo peças longas - que diga-se de passagem era a marca registrada da artista - que traziam um caráter particular de desdobramento de sonoridades em várias camadas. Ela criou dezenas de composições, com destaque para a “Trilogie de la Mort” e “Adnos”.


E a Techtrônica está de volta falando hoje sobre “Mulheres pioneiras na música eletrônica”. No contexto brasileiro, quando se pensa em música do final dos anos 50 é fácil lembrar do período da Bossa Nova, mas o que queremos destacar é que naquele mesmo período foi lançado, pela gravadora Copacabana, o disco “A música século XX”, de Jocy de Oliveira, que antecipou o encontro da música popular com o movimento avant-garde, que mais tarde seria bastante explorado por Tom Zé e Arrigo Barnabé.


Jocy de Oliveira foi uma agente fundamental no processo de renovação da música de teatro no Brasil, importando conceitos das vanguardas européias do século XX. Ainda em 1961, em parceria com o maestro Eleazar de Carvalho, seu marido, ela organizou a Semana de Música Eletrônica, durante a Bienal de Arte, com apresentações no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e em São Paulo.


Nesta ocasião, foi apresentado ao público brasileiro Apague Meu Spotlight, uma peça de “teatro-música” escrita por Jocy em parceria com o italiano Luciano Berio para 13 atores e bailarinos, dentre eles Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi e Sergio Britto. Foi considerada a primeira ópera multimídia composta com música eletrônica apresentada no Brasil. Infelizmente, essa história sofreu um apagamento forçado pelo período da Ditadura Militar, sendo declarada como obra subversiva, foi censurada e destruída.


Felizmente, alguns poucos registros salvos em fita magnética foram resgatados e podemos hoje conhecer um pouco do que foi essa marcante obra para a vanguarda da música eletrônica no Brasil. Fiquem agora com um trecho de “Apague Meu Spotlight”, de Jocy de Oliveira.


O período da Ditadura levou Jocy a deixar o país, e seus poucos projetos apresentados no Brasil sofreram intervenção e impedimento da censura. Ela só voltou a lançar um disco no Brasil em 1981: Estórias para Voz, Instrumentos Acústicos e Eletrônicos.

Nesta obra, considerada marcante para o experimentalismo na música eletrônica brasileira, Jocy de Oliveira investiga as ideias de semântica e fonética da voz humana explorando sua manipulação através de processamentos eletrônicos. Fiquem agora com um trecho de “Estórias para Voz”.


Jocy de Oliveira foi uma pioneira na música eletrônica no Brasil, além de concertista e compositora para ópera, balé e teatro, foi uma importante agente na disseminação de um pensamento crítico e mais experimentalista para a música nacional.


Agora vamos falar um pouco sobre a americana, com ascendência italiana, Suzanne Ciani, compositora cinco vezes nomeada para o Grammy. Ciani se dedicou principalmente aos sintetizadores Buchla, sendo pioneira em apresentações eletrônicas ao vivo.


Além disso, criou uma empresa própria de produção de efeitos sonoros, sendo responsável por elaborar sons icônicos para algumas das maiores marcas dos anos 70 e 80 dos Estados Unidos. Lembram do clássico som de uma garrafa de Coca-Cola sendo aberta e derramada?


Além de todos esses feitos, Suzane Ciani também foi a responsável por produzir efeitos sonoros de um jogo de pinball chamado Xenon, o que significa um marco na história dos games, já que esta foi a primeira máquina de pinball a contar com uma voz feminina.


Falando ainda sobre o uso de sintetizadores, no final da década de 1960 e início da década de 1970, destacamos o pioneirismo de Wendy Carlos, artista transgênero que ficou conhecida pela trilha sonora do filme “Laranja Mecânica”.


Wendy regravou clássicos do compositor Bach, usando apenas sintetizadores Moog, que ela mesma ajudou a refinar e melhorar. Este trabalho acabou se tornando o primeiro álbum de música clássica a ganhar um disco de platina!


A releitura de Wendy Carlos das peças do compositor Bach ganhou três Grammys e vendeu 1 milhão de cópias, apenas nos Estados Unidos. Além disso, o álbum se tornou um dos clássicos “eletrônicos”, exatamente pelo pioneirismo em quebrar as fronteiras entre música clássica e a feita com sintetizadores.


Outro trabalho bastante influente de Wendy Carlos é chamado Digital Moonscapes, inspirado nas grandes luas do sistema solar. Nesse álbum, a artista explora a possibilidade de uma orquestra digital pela primeira vez, trocando sintetizadores analógicos por digitais.


Pra fechar esse time admirável de mulheres pioneiras na música eletrônica, nosso tema do programa de hoje, apresentamos Laurie Spiegel. A artista multi instrumentista, graduou-se em música e matemática, e em 1973, começou a programar computadores gigantes, tornando-se engenheira de software e compositora de música eletrônica da Bells Labs em Nova Iorque.


Laurie Spiegel desenvolveu o Music Mouse, um software inovador que transformava o computador em um instrumento musical. Sua aptidão para a programação a levou a recriar digitalmente, os sons descritos na obra “Harmonices Mundi”, do astrônomo Johannes Kepler, que defendia a teoria de que os planetas cantam músicas e que cada um deles emite um tom. Esse material sonoro foi enviado ao espaço a bordo da sonda Voyager, integrando o disco “Golden Record” que reuniu mensagens, imagens e informações sobre a vida no planeta terra para outras galáxias, sendo a primeira obra de música eletrônica a atravessar o espaço sideral.


Saiba como:

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  3. Clique em Editar


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